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Sobre a Sociedade da Informação e a Quarta Revolução Industrial - I

Atualizado: 24 de Fev de 2019

Por Sergio Martins*



Sociedade da Informação: algumas definições



Sabe-se que a velocidade das transformações dos acontecimentos nas últimas três décadas, em todas as esferas – econômica, social, militar, política e governamental – tem despertado interesse de inúmeros teóricos, sociólogos, historiadores e filósofos na direção de uma percepção mais acurada de interpretação dos fatos. Sabe-se também que interpretar acontecimentos tão complexos enquanto se é contemporâneo dos mesmos frequentemente ocasiona uma miopia analítica, uma vez que torna-se difícil entender os eventos e prever seus rumos no compasso de suas ocorrências. Entretanto, e ainda assim, tem sido possível conjecturar perspectivas e dimensões de vetores que indiquem classes ou categorias que apontem para determinadas dimensões. No presente caso, ao falar-se da sociedade da informação, termo por si só controverso, esforços têm sido feitos no sentido de traçar um perfil que configure e abarque suas características e aponte suas tendências. 


Por conta da multiplicidade de interpretações sobre os fenômenos e transformações sociais do momento, podemos ouvir referências a termos como “Era da Informação”, “Sociedade da Informação”, “Era do Conhecimento”, “Sociedade do Conhecimento”, “Sociedade Pós-Capitalista”, dentre outros. Como dito, conquanto seja difícil alguém caracterizar ou nomear uma época no momento que se nela se vive, algumas colocações têm se mostrado apropriadas para tal, pelo fato de revelar aspectos pertinentes às ocorrências. 


Algumas interpretações podem fornecer uma ideia das mudanças sociais em curso, sendo talvez as mais influentes. Marc Halévy (2010) as define como a “Era do Conhecimento”, visto que o conhecimento é compartilhado na Nooesfera* ficando, assim, à disposição para trocas entre seres humanos. Pierre Lévy sustenta que “As Tecnologias da Inteligência” (1996) levou à “Cibercultura” (1999). Peter Drucker define a atual sociedade/tempo como “Sociedade pós-capitalista” (1995), Manuel Castells define como “Sociedade em Rede” (2000) e Adam Schaff como “Sociedade Informática” (1997), apenas para citar alguns. (Referências no final)


* Noosfera - Numa breve definição, é um espaço abstrato, simbólico-cultural, onde se armazena e se dá a transferência do conhecimento humano

De qualquer maneira, a grande maioria dos teóricos da atualidade concorda que a antiga Era Industrial chegou a seu fim já há muitos anos, ao menos segundo as configurações que a caracterizavam. De acordo com Rodriguez y Rodriguez, a Era Industrial possuía três pilares básicos, a saber: 

  • Meios de transporte: para escoamento de insumos do processo produtivo;

  • Energia: para operação de máquinas na produção de bens;

  • Indústria: base de todo o processo produtivo. 

É certo que a era industrial tinha como vetor a burocracia e a produtividade em larga escala. Também aspectos como as relações hierárquicas configuravam o cenário de governos e empresas. Ainda segundo Rodriguez y Rodriguez, alguns fatores ainda podem ser considerados: 

  • Burocracia

  • Produtos e serviços padronizados

  • Salários padronizados

  • Estrutura organizacional hierárquica

  • Autoridade do chefe

  • Centralização das decisões de poder

  • Informação como fonte de poder 

Sobre este último tópico, a “informação como fonte de poder”, deve-se lembrar que a manutenção e o segredo da informação era um dos aspectos altamente priorizados na era industrial. A manutenção, segurança e a disponibilidade de informação para a tomada de decisão revelou-se como um fator estratégico para muitas organizações, empresas e governos desta época. Embora ainda tais aspectos sejam amplamente considerados, grandes mudanças ocasionaram uma adaptação aos novos tempos. 


Com as aceleradas transformações das últimas décadas, os fatores acima descritos passaram a engessar o desenvolvimento das organizações como um todo, impedindo o crescimento e o perfil competitivo de empresas e governos. Rodriguez y Rodriguez ainda ressalta que o deslocamento da era industrial para uma era baseada na informação e no conhecimento foi motivada pelos fatores Informação e Conhecimento: 


  • Informação: queda das fronteiras informacionais, onde o compartilhamento passou a ser o foco;

  • Conhecimento: que passou a ser priorizado, tendo as seguintes configurações: É tácito, não sendo propriedade de empresas ou governas, mas de indivíduos; É orientado para a ação: o conhecimento é percebido pelos sentidos e passível de aplicação prática; É sustentado por regras: se dão por impressões sensoriais e processadas pelo cérebro; Está em constante mutação: o conhecimento, quando externado pela fala ou escrita torna-se explícito, sendo passível de acumulação; É um valor intangível: o conhecimento não pode ser mensurado e cria novos conhecimentos. 


Estas características da ascensão do conhecimento reflete-se num paradigma disruptivo com a era industrial, onde algumas justaposições podem ser comparadas a seguir: 

Para Peter Drucker, o conhecimento é o ativo que norteia não somente a sociedade – Sociedade do Conhecimento – como também a economia – Economia do Conhecimento – ao que ele chama de Sociedade Pós-Industrial. Para ele, se a Revolução Industrial do século XVIII moldou o capitalismo e a era moderna, a Revolução Gerencial forneceu, ao menos para a economia, as bases da economia do conhecimento, prática produtiva típica da sociedade do conhecimento. Em suas palavras, 


No início dos anos 1950 a definição de ‘gerente’ já havia mudado para alguém que é responsável pelo desempenho de pessoas. Sabemos hoje que essa definição também é demasiado restrita. A definição correta de gerente é alguém que é responsável pela aplicação e pelo desenvolvimento do conhecimento. 


Drucker sustenta que a economia e a sociedade do conhecimento é alicerçada no ser-humano com responsabilidades e consciências sociais e ambientais, o ser humano instruído. Para ele o conhecimento reside nos indivíduos; as coisas – bancos de dados, livros, documentos etc – contém apenas informações. A economia do conhecimento, prática da sociedade do conhecimento, constitui-se, assim, a própria caracterização da Sociedade Pós-Industrial. Desta forma, para Drucker: 

Ainda de acordo com sua perspectiva, ele sustenta que a sociedade Pós-Industrial necessita de pessoas instruídas, com consciência social e ecológica para produção de conhecimento. E essa produção se dá em núcleos ou coletividade, isto é, nas próprias organizações. Sob esta perspectiva, as organizações são as células e o alicerce da Sociedade Pós-Industrial, onde o ser instruído produz e recebe conhecimento. Entre os indivíduos instruídos, em sua atuação dentro das organizações, os “gerentes do conhecimento” constituem-se no elemento central e o elo mais importante, interligando atividades físicas e rotineiras com atividades altamente especializadas e mais intelectualizadas. Desta maneira, Drucker constata que tais gerentes constituem a base da organização, que por sua vez é a base da Sociedade Pós-Industrial. 


Uma outra perspectiva é sustentada por Halévy que defende o atual momento como a Era do Conhecimento. Esta Era do Conhecimento se deu pela Revolução Noética*, isto é, o rompimento com o tradicional pensamento cartesiano, incorporando uma visão sistêmica dos fenômenos atuais, considerando a complexidade inerente aos mesmos.

*Revolução Noética – Ruptura com os princípios cartesianos tradicionais de interpretação dos fenômenos e ascensão de uma nova maneira holística de interpretá-los, com base em teorias como Teoria de Sistemas e Teoria da Complexidade, de modo a enriquecer a noosfera

Além da Teoria Sistêmica, a Teoria da Complexidade aqui é levada em consideração, onde os fenômenos não são mais simplesmente elucidados pela decomposição das partes; a complexidade é exponencial, e a interação gerada a cada nova composição das partes gera uma complexidade adicional, não prevista e aleatória. Em suas palavras, 

O ciclo de ontem era a chamada ‘Era Moderna’, nascida de outra ruptura em meados do século XV, na transição entre o fim da era feudal e o Renascimento italiano. Assim, meio milênio de ‘modernidade’ está se encerrando. (...) A explosão das tecnologias da informação e da comunicação (TICs) transformou de modo radical o nosso modo de funcionamento, tanto doméstico quanto profissional. Os chamados ‘mundos virtuais’ provocaram a desmaterialização de muitos aspectos da vida cotidiana, a começar pelo cartão de banco, que substituiu o dinheiro, então símbolo e coração da moribunda era moderna que findou. (HALÉVY, 2010) 

Na sua maneira de interpretação dos fenômenos, Halévy sustenta a necessidade de uma visão holística dos fenômenos sociais, não somente considerando perspectivas econômicas, sociais, religiosas etc, mas sim todas elas juntas, inclusive fatores biológicos, psicológicos e espirituais. A partir de uma visão holística, integrada e gnóstica, a interpretação dos fenômenos torna-se mais frutífera, mesmo levando-se em conta sua complexidade. Desta forma, o novo homem estará pronto para entender a revolução noética e adentrar na Era do Conhecimento. 


Talvez um dos maiores expoentes da Sociedade da Informação seja o sociólogo espanhol Manuel Castells. Em sua monumental obra “A Sociedade em Rede”, Castells elucida com detalhes o processo de transformação social-cultural pelo qual as sociedades vêm passando e que culmina com a integração das tecnologias da informação e da comunicação, culminando numa sociedade conectada em rede, conexão essa planetária. Suas ideias e teorias tem sido amplamente consideradas, influenciando vários teóricos ao redor do mundo. Embora a nomeie como “sociedade em rede”, Castells refere-se precisamente à rede de informação que conecta os indivíduos. A Sociedade da Informação, segundo Castells, inicia-se nos anos 1970, ao qual chama de “a divisória tecnológica dos anos 70”. Nesta época, o poder dos processadores e da microeletrônica, aliados aos acontecimentos geopolíticos globais como a crise do petróleo alavancou uma revolução tecnológica sem precedentes, sobretudo nos Estados Unidos. Para Castells, alguns fatores podem ser considerados: 

A convergência destes acontecimentos geopolíticos com as tecnologias emergentes e informação e comunicação, de acordo com Castells, fazem surgir um novo paradigma sócio-técnico. Em suas palavras, 

Com efeito, a interface de programas de macro investigação e grandes mercados desenvolvidos pelo Estado, por um lado, e inovação descentralizada estimulada por uma cultura de criatividade tecnológica e modelos de sucesso pessoal rápido, por outro, foi a causa pelo qual as novas Tecnologias da Informação chegaram a um florescer. Assim fazendo, reuniram ao seu redor redes de empresas, organizações e instituições para formar um novo paradigma sócio-técnico, que é a base da sociedade em Rede. (CASTELLS, 2000) 

Este novo paradigma, sustentado por Castells, possui 5 aspectos: 


1. A Informação é sua a matéria-prima; pela primeira vez, as tecnologias foram implementadas para servir à informação, e não o contrário, como em épocas anteriores;

2. O amplo poder de penetração das novas tecnologias, que molda todos os aspectos da vida humana, a forma como os indivíduos se comunicam e, também, sua própria forma de existir;

3. A lógica de interconexão das novas tecnologias, que se refere à infraestrutura de rede para interligar e proporcionar esta convergência tecnológica;

4. A flexibilidade das interconexões tecnológicas, no qual as redes e infraestruturas podem adaptar-se e modificar-se frequentemente, atendendo a demandas, desafios ou necessidades emergentes;

5. A convergência crescente de tecnologias específicas num sistema altamente integrado, que equipara antigas tecnologias analógicas com as modernas tecnologias digitais. 


O impacto deste paradigma é difícil de prever, de acordo com Castells, porém para ele, uma nova reestruturação social se dá em muitos âmbitos e possui muitos aspectos, onde podemos destacar alguns: 

  • Espaço dos fluxos de informação

  • Aldeia Global (mundo interconectado)

  • Mega-cidades globais

  • Espaços físicos (arquitetura) e digitais (interconexão) globais

  • Novos espaços industriais

  • Nova forma de percepção do tempo: tempo flexível, tempo “atemporal”

  • Guerras instantâneas e cirúrgicas

  • Novo espaço paralelo e tecnológico de interação entre pessoas, empresas e estados

Não há dúvidas de que Castells é um dos mais eminentes pensadores contemporâneos da Sociedade da informação. Recentemente, em 2016, ele reviu e aumentou sua já monumental obra, incorporando elementos mais atuais para discutir este tema tão complexo. Ele ainda encontra-se em plena atividade, ministrando cursos e palestras ao redor do mundo. 


Uma outra visão dos tempos atuais é exposta por Pierre Lévy, renomado filósofo francês, pensador dos efeitos e impacto das tecnologias no mundo e na sociedade. Lévy tem sido tão ativo quanto Castells, lecionando em inúmeras universidades e palestrando nos mais diversos ambientes. Para Lévy, os seres humanos necessitam da escrita para a criação de uma rede de conhecimento que o permita progredir enquanto civilização e como espécie, e as tecnologias têm convergido para proporcionar tal integração. 


Lévy desenvolveu uma ideia bastante interessante do modo de pensar do ser-humano, base para as tecnologias da informação, da inteligência artificial, tecnologias coletivas e tecnologias da inteligência. Essa ideia baseia-se na noção de hipertexto: o pensamento humano não se dá de forma linear, mas de forma associativa, com nós que interligam conceitos diversos e distintos. Ainda que este conceito tenha sido mencionado por pensadores anteriores, Lévy o sistematizou numa linguagem atual: ao contrário de uma máquina computacional convencional, a maneira de pensar do cérebro humano se dá de forma livre, baseada em aprendizado e em experiências prévias de mundo. 



O conceito de hipertexto, assim, é uma metáfora para o pensamento associativo, não-linear e fluido, navegando por conceitos, ideias e abstrações simbólicas de maneira relacional e não causal. Da mesma forma, para Lévy, a inteligência artificial, para ser bem sucedida, deve operar da mesma forma, conectando links de acordo com a semântica necessária ao tema processado. 


Outro conceito apontado por Lévy é o conceito de Groupware, que à época em que o revelou (início dos anos 1990), constituía a base para as redes sociais e comunidades de prática. A ideia revelada pelo Lévy seria a gênese do que hoje conhecemos como a Wikipedia, ou seja, growpwares (grupo de trabalho colaborativo entre pessoas) operando a inteligência coletiva. Esse campo de operação constitui-se no Ciberespaço, isto é, local onde se desenvolve a Cibercultura ou Inteligência Coletiva ou ainda Ecologia Cognitiva.

Lévy cita ainda os campos em que a Cibercultura pode ser acessada e operacionalizada: 

Comunicação e NotíciasIntegração SocialSom e MúsicaImagem e VídeoMemória coletivaArtesEconomiaEducação (podemos incluir educação à distância)

Lévy se mantém neutro em relação à técnica ou às técnicas, isto é, em relação à tecnologias da informação. Embora seja um entusiasta das novas tecnologias, ele sustenta que estas não determinam operativamente os caminhos da sociedade, mas condicionam. Nisso há uma diferença fundamental. As tecnologias dão as condições de práticas sociais diversas de uso da informação – para o bem ou para o mal – sem, no entanto, ser determinante para tal. Para ele, a tecnologia em si é neutra e o que é parcial é o uso que se faz dela. 


Fim da Parte I


Fontes e Indicações bibliográficas


CASTELLS, Manuel. La Sociedad Red: la era de la información: economía, sociedad y cultura. 2. ed. Madrid: Alianza Editorial, 2000.

DRUCKER, Peter. A Sociedade Pós-Capitalista. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1995.

HALÉVY, Marc. A Era do Conhecimento: princípios e reflexões sobre a revolução noética no século XXI. São Paulo: Unesp, 2010.

LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 1993.

__________. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

RODRIGUEZ Y RODRIGUEZ, Martius V. Gestão Empresarial: organizações que aprendem. Rio de Janeiro: QualityMark, 2002.

SCHAFF, Adam. A Sociedade Informática. São Paulo: UNESP/Brasiliense, 1997.

SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016.


* Sergio Martins é professor das disciplinas de eixo tecnológico do curso de Biblioteconomia da Universo



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