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Sobre a Sociedade da Informação e a Quarta Revolução Industrial - II

Atualizado: 24 de Fev de 2019

Por Sergio Martins*



A Quarta Revolução Industrial


Além das visões dos especialistas acima expostos, que conceituam e caracterizam a Sociedade da Informação, recentemente (em 2016) surgiu um conceito novo e controverso nas discussões do World Economic Forum (Fórum Econômico Mundial), evento anual que se dá na cidade de Davos, na Suíça. Já há muito admitindo abertamente os tempos atuais como a Era da Informação, ou Sociedade da Informação, um de seus mais eminentes teóricos e influenciadores, Klaus Schwab, revelou recentemente um novo fenômeno paradigmático na atual sociedade: A Quarta Revolução Industrial. O impacto desta nova revolução industrial foi abordado num expressivo relatório, em meados de 2016, apontando as características, rumos, tendências, desafios, prós e seus contras, inclusive com referências a desdobramentos em outros relatórios temáticos. O fenômeno da Quarta Revolução Industrial é tão complexo que, em suas palavras:

Ainda precisamos compreender de forma mais abrangente a velocidade e a amplitude dessa nova revolução. Imagine as possibilidades ilimitadas de bilhões de pessoas conectadas por dispositivos móveis, dando origem a um poder de processamento, recursos de armazenamento e acesso ao conhecimento sem precedentes. Ou imagine a assombrosa profusão de novidades tecnológicas que abrangem numerosas áreas: inteligência artificial, robótica, Internet das Coisas, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos materiais, armazenamento de energia e computação quântica, para citar apenas alguns. Muitas dessas inovações estão apenas no início, mas já estão chegando a um ponto de inflexão de seu desenvolvimento, pois já constroem e amplificam umas às outras, fundindo as tecnologias do mundo físico, digital e biológico. (SCHWAB, 2016) 

De acordo com Schwab, a primeira Revolução Industrial teve início em meados do século XVIII, com o desenvolvimento da manufatura, das ferrovias e máquinas a vapor. A segunda ocorreu em fins do século XIX, com o advento da eletricidade, da linha de montagem e a produção em massa. A terceira ocorreu a partir da década de 1960, quando o computador, os chips e os semicondutores alçaram os mainframes na computação, juntamente com o desenvolvimento dos sistemas operacionais (década de 1970), os computadores pessoais (década de 1980) e a internet (década de 1990). 

Embora muitos teóricos reconheçam que estejamos ainda numa terceira Revolução Industrial, no qual os recentes fenômenos são apenas seus desdobramentos e consequências, para Schwab, a partir da virada do século XXI, houve uma revolução digital tão significativa a ponta de justificar uma nova – e quarta – revolução industrial. Segundo ele, 

É caracterizada por uma internet mais ubíqua e móvel, por sensores menores e mais poderosos que se tornaram mais baratos e pela inteligência artificial e aprendizagem automática, isto é, aprendizagem de máquina ou computação cognitiva. (SCHWAB, 2016) 

A Quarta Revolução Industrial possui megatendências que funcionam como categorias de sua operação. Estas tendências/categorias são: 

  • Categoria física: são produtos típicos da Quarta Revolução Industrial, como os veículos autônomos, as impressões 3D, a robótica avançada e novos materiais sintéticos 

  • Categoria digital: é a revolução causada pela Internet das Coisas, isto é, pelos dados gerados pelos mais diversos dispositivos eletrônicos, como smartphones, tablets, microsensores, blockchains e bitcoins – estes últimos dispositivos massivos digitais que funcionam como agentes mediadores autônomos de confiança comercial (blockchains) e moeda virtual (bitcoin)

  • Categoria Biológica: é a revolução na nanobiologia e biotecnologia, operando sobretudo nas áreas de genética, como a biologia sintética. Dentre em pouco será possível confeccionar tecidos ou até mesmo órgãos a serem transplantados em pacientes. Também a neurobiologia, as neurociências e ciência cognitiva será o vetor da Quarta Revolução Industrial

Além das categorias acima citadas, Schwab aponta várias mudanças a serem impactadas pela Quarta Revolução Industrial, a saber, todas controversas e com prós e contras: 

  • Tecnologias implantáveis

  • Presença digital

  • A visão como nova interface

  • Tecnologias vestíveis 

  • Tecnologias ingeríveis

  • Computação ubíqua

  • Supercomputadores de bolso

  • Armazenamento universal 

  • Internet das coisas e para as coisas

  • Casa inteligente

  • Cidade inteligente

  • Big Data para decisões

  • Carros autônomos

  • Inteligência artificial e computação cognitiva

  • Robótica e serviços afins

  • Moedas virtuais (bitcoin) e programas mediadores (blockchain)

  • Economia compartilhada

  • Impressões em 3D

  • Seres projetados

  • Neurotecnologias 

Em adição, podemos ainda citar: 

  • Realidade aumentada

  • Imersão virtual 


Todos os fatores acima apontam para uma nova Revolução Industrial que, para Schwab, caracteriza a Sociedade da Informação e do Conhecimento. Como se pode perceber, as tecnologias já se tornaram onipresentes e muitas vezes os indivíduos nem a percebem, de tão imersos que estão no seu uso e na sua dependência: já tornou-se algo natural, do qual as pessoas não podem mais ignorar ou prescindir. Podemos adicionar ainda que, caracterizando ainda mais aspectos da atual Sociedade da Informação, podemos citar tecnologias e práticas que têm tido cada vez mais destaque nos últimos anos: 

  • Big Data: refere-se à infinidade de dados gerados pelos mais diversos dispositivos da atualidade. Tem sido citada por especialistas e visada por empresas a partir da proliferação de smartphones e microsensores, além das redes sociais, que criam uma quantidade colossal de dados a serem interpretados. Sua interpretação só é possível através de softwares específicos para esta tarefa, tal a magnitude e o tamanho dos dados gerados. 

  • Internet das Coisas: é o ciberambiente que interliga e conecta todos os dispositivos que acessam a internet, desde torradeiras, sistemas de iluminação e casas inteligentes até acessórios como roupas, relógios, câmeras, smartphones e tudo o mais que possa estar conectados à internet e gerando dados para alguém ou para algum lugar. A quantidade de dados gerada é que consiste no Big Data.

  • Realidade aumentada: é o ambiente de imersão que funde o ambiente físico com o ambiente digital, onde ocorrem simulações e atuações para as mais diversas finalidades. Os indivíduos imergem num ambiente de realidade aumentada de modo a expandir sua capacidade de operação a atuação na realidade, ainda que com atuação em ambiente digital/virtual.

  • Nova realidade espaço-temporal: as novas tecnologias têm ampliado o número de tarefas que podemos realizar no tempo, bem como potencializado a eficácia operacional de nossas atividades, ocasionando uma distorção na percepção do tempo, encurtando períodos para interação e integração que se refletem nos negócios e mesmo na vida social. Da mesma forma, nossa percepção do espaço tem sido encurtada, onde células e coletividades sociais não mais precisam estar fisicamente próximas para operarem. Isso se reflete nos estudos – educação à distância – e mesmo nas práticas trabalhistas – home office – que tem sido adotadas cada vez mais por instituições, tais como escolas, universidade e pelo mundo corporativo. 


Informação como recurso essencial e estratégico


Importante ressaltar alguns aspectos controversos sobre o que se entende pela nomenclatura da nova sociedade. Existem especialistas - filósofos, sociólogos etc - que a caracterizam como Sociedade do Conhecimento, enquanto outros tantos a caracterizam como Sociedade da Informação. É sabido que a informação é o veículo para o conhecimento e que o conhecimento se dá pela aquisição de informação. Entretanto, existem vários tipos de conhecimento, buscado pelas mais diversas sociedades ao longo da história. Isso quer dizer que é correto afirmar que todas as sociedades no tempo sempre foram sociedades do conhecimento, fosse conhecimento religioso ou conhecimento prático. Todas as civilizações desenvolveram conhecimentos úteis para a finalidade de seus interesses. Por outro lado, a informação, embora presente em todas as civilizações – fosse oral ou escrita – era apenas o veículo para o conhecimento. 


Entretanto, nos tempos atuais, isto é, na sociedade atual, nunca antes a informação em si teve tanto destaque e relevância. Mesmo os dados, que são registros passíveis de transformação em informação, adquiriram uma importância sem precedentes nos tempos atuais. No caso da informação, esta inclusive tornou-se objeto de investigação científica – Ciência da Informação – que estuda suas propriedades e impactos sociais e tecnológicos. Assim, percebe-se que faz mais sentido caracterizar a sociedade atual como Sociedade da Informação ao invés de Sociedade do Conhecimento. A informação, ela mesma, tornou-se um ativo tão importante e estratégico como outros fenômenos, bens ou artefatos criados pela civilização, como por exemplo o capital. O mesmo vale para a caracterização dos tempos atuais, isto é, Era da Informação ao invés de Era do Conhecimento. 


Conquanto existam vários teóricos entusiastas da Era da Informação e da Sociedade da Informação, há também aqueles que são extremamente críticos em relação aos fenômenos que caracterizam a era e a sociedade atual. Para estes, como Marshall McLuhan, Armand Mattelart, Zygmunt Bauman e Paul Virilio, dentre outros, os tempos modernos têm corrompido a sociedade, destruindo aspectos das relações humanas, sociais, políticas e econômicas. As tecnologias, mesmo que possam ser neutras em si mesmas, são máquinas e ferramentas que inevitavelmente servem aos interesses de estados e do capital, oprimindo e controlando a vida dos indivíduos. Ainda que McLuhan tenha se referido ao conceito de Aldeia Global como aspectos de integração promovidos sobretudo pelos meios tradicionais de comunicação de massa – como a TV – por outro lado Castells, como entusiasta, concebe uma Aldeia Global como a sociedade interconectada em rede. 


As mudanças e as revoluções sociais e tecnológicas têm sido cada vez mais velozes, profundas e complexas, oferecendo desafios que transcendem uma capacidade superficial de interpretação e entendimento. Mesmo especialistas relatam extrema dificuldade em interpretar os fenômenos atuais, tal a frequência de ocorrência, bem como sua rapidez. Quase todos são unânimes em reconhecer que suas ideias são passíveis de erros – seja pela subestimação ou pela supervalorização dos mesmos. Também interpretar os impactos na sociedade de tais fenômenos requer um jogo que implica uma longa observação de relação causais, tempo que os especialistas não dispõem, pois corre-se o risco de, quando perceberem tais relações de causa e efeito, o paradigma já tenha mudado. 


Entretanto, é inegável que a coerência de suas ideias, teorias, observações e apontamentos é extremamente significativa para nos situarmos no momento atual, tanto no tempo quanto no espaço. Sem suas contribuições, indubitavelmente ficaríamos impotentes e perdidos ante à avassaladora mudança e complexidade dos fenômenos trazidos pelas cada vez mais incessantes e profundas revoluções que as tecnologias nos trazem. Suas ideias são guias que permite-nos avançar e lidar com as novas realidades que deparamos a todo momento.



Fim da Parte II


Fontes e Indicações bibliográficas


CASTELLS, Manuel. La Sociedad Red: la era de la información: economía, sociedad y cultura. 2. ed. Madrid: Alianza Editorial, 2000.

DRUCKER, Peter. A Sociedade Pós-Capitalista. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1995.

HALÉVY, Marc. A Era do Conhecimento: princípios e reflexões sobre a revolução noética no século XXI. São Paulo: Unesp, 2010.

LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 1993.

__________. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

RODRIGUEZ Y RODRIGUEZ, Martius V. Gestão Empresarial: organizações que aprendem. Rio de Janeiro: QualityMark, 2002.

SCHAFF, Adam. A Sociedade Informática. São Paulo: UNESP/Brasiliense, 1997.

SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016.


* Sergio Martins é professor das disciplinas de eixo tecnológico do curso de Biblioteconomia da Universo



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